Cirurgia plástica é eletiva e estética. Por que preciso fazer risco cirúrgico?
Porque o corpo não distingue a finalidade da cirurgia. Anestesia, tempo de mesa, perda de sangue, imobilidade e resposta inflamatória acontecem do mesmo jeito em uma abdominoplastia e em uma cirurgia de urgência. A diferença é que, na cirurgia eletiva, existe tempo para descobrir e corrigir problemas antes.
Isso não é opinião. A Resolução CFM nº 1.711/2003, que estabelece parâmetros de segurança para as cirurgias de lipoaspiração, afirma no Art. 4º que "as condutas pré-operatórias devem ser as mesmas adotadas para quaisquer atos cirúrgicos, prevendo, além de apurada anamnese e exame físico, as avaliações clínicas, laboratoriais e pré-anestésicas necessárias".
Há um ponto que costuma passar despercebido: muitos pacientes de cirurgia plástica são jovens, ativos e sem queixas. Isso é bom, mas não é o mesmo que avaliado. Parte das arritmias, das valvopatias silenciosas e das apneias do sono aparece pela primeira vez exatamente nessa consulta. É essa a razão de o risco cirúrgico para cirurgia plástica existir mesmo quando nada parece errado: ele procura o que ainda não deu sintoma.
A mesma resolução, no Art. 2º, registra que as cirurgias de lipoaspiração "não devem ter indicação para emagrecimento". É um lembrete útil: o procedimento corrige contorno corporal, não trata obesidade, e a obesidade, quando existe, precisa ser abordada por outro caminho, antes e depois da cirurgia.
O que faz uma cirurgia plástica ser considerada de risco mais alto?
Pesam o tempo cirúrgico, a extensão da área operada, a associação de procedimentos, a posição do paciente na mesa e o risco de trombose. Existem dois riscos que se somam: o do procedimento, que depende do tipo e da duração da operação, e o do paciente, que depende das condições clínicas de quem vai ser operado.
A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2024) descreve o primeiro deles de forma direta: "o risco intrínseco da operação é determinado pelo tipo e pela sua duração, sem levar em conta as características clínicas do paciente".
| O que muda | Por que importa na avaliação |
|---|---|
| Tempo cirúrgico longo | Mais tempo de imobilidade, de anestesia, de perda de calor e de variação da pressão. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso da SBC (2022) lista entre os fatores de risco a "cirurgia geral de grande porte (>45min, aumentando o risco quanto mais longo for o procedimento)". |
| Cirurgias combinadas | Somam tempo, área cruenta e volume de sangramento. O Art. 10 da Resolução CFM nº 1.711/2003 orienta que "a associação com procedimentos cirúrgicos outros deve ser evitada quando as relações entre o volume e a área corporal estejam próximas ao máximo admitido". |
| Lipoaspiração de grande volume | O Art. 9º da mesma resolução determina que os volumes aspirados não ultrapassem 7% do peso corporal na técnica infiltrativa, ou 5% na não-infiltrativa, e nem 40% da área corporal em qualquer técnica; casos de exceção ficam restritos a ambiente de estrutura hospitalar completa. Volume alto significa deslocamento de líquidos, risco de anemia e necessidade de monitorização rigorosa. |
| Abdominoplastia | A plicatura aumenta a pressão dentro do abdome, o que pode reduzir o retorno do sangue das pernas e limitar a expansão do tórax no pós-operatório. |
| Posição no intraoperatório | Decúbito ventral (de bruços) e mudanças de posição durante o ato alteram retorno venoso, pressão arterial e ventilação, e prolongam o tempo total. |
| Risco de tromboembolismo | Combinação frequente em plástica: cirurgia prolongada, imobilidade, cinta compressiva, repouso no pós-operatório e, às vezes, hormônio. O Art. 11 da mesma resolução determina que sejam tomadas as medidas preventivas usuais para trombose venosa profunda e acidentes tromboembólicos. |
Do lado do paciente, um dos dados mais informativos continua sendo simples e gratuito: a capacidade funcional, ou seja, quanto esforço a pessoa aguenta sem sintoma. A Diretriz da SBC (2024) registra que "pacientes com baixa capacidade funcional (menos de quatro equivalentes metabólicos [METs] ou incapacidade de subir dois lances de escadas) apresentam maior chance de complicações perioperatórias". Por isso, na consulta a conversa sobre escada, ladeira e esforço do dia a dia vem antes de qualquer pedido de exame.
Para entender como essa leitura vira uma letra e um número no laudo, veja o que significa a classificação ASA.
Preciso mesmo contar que uso anticoncepcional, terapia hormonal ou remédio para emagrecer?
Sim, e essa é uma das informações que mais costumam ficar de fora da consulta pré-operatória. Anticoncepcional com estrogênio, terapia hormonal e implantes hormonais alteram a coagulação. Medicamentos para emagrecer alteram o esvaziamento do estômago, a frequência cardíaca e os eletrólitos. Nada disso aparece em exame de rotina se ninguém perguntar e ninguém contar.
Estrogênio e coagulação
A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso da SBC (2022) inclui, entre as condições de hipercoagulabilidade (sangue com maior tendência a coagular), o "uso de contraceptivos orais contendo estrogênio e reposição hormonal". Somado a uma cirurgia longa e à imobilidade do pós-operatório, esse é um empilhamento de fatores que precisa ser conhecido antes, e não descoberto depois. A decisão de suspender, manter ou trocar o método é individual e envolve ginecologista, cirurgião e cardiologista: nunca uma suspensão por conta própria na véspera.
Medicamentos para emagrecer
Os agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, e a tirzepatida, que age nos receptores de GIP e GLP-1, retardam o esvaziamento gástrico. Isso interfere no jejum pré-anestésico e no risco de aspiração (conteúdo do estômago indo para o pulmão durante a anestesia). A Sociedade Brasileira de Anestesiologia endossou, em agosto de 2025, uma atualização multiprofissional sobre o perioperatório que trata do manejo dessas medicações, com conduta individualizada. Quem define jejum e suspensão é o anestesiologista, e ele só consegue fazer isso se souber que você usa.
O que mais vale declarar
- Anfepramona, sibutramina, termogênicos, chás e fórmulas manipuladas para emagrecer.
- Anabolizantes e testosterona, inclusive implantes.
- Antidepressivos, anticoagulantes, antiagregantes e anti-inflamatórios de uso contínuo.
- Suplementos e fitoterápicos, que também podem interferir na coagulação.
- Tabagismo e uso de vape, que aumentam o risco respiratório e de complicação de cicatrização.
Traga as caixas ou uma foto delas para a consulta. Vale mais o que está escrito na embalagem do que a lembrança do nome do remédio.
Obesidade, apneia do sono e pressão alta atrapalham a cirurgia plástica?
São três condições que mudam a conduta com frequência e costumam vir juntas. A obesidade aumenta o risco de trombose e dificulta posicionamento e ventilação. A apneia obstrutiva do sono aumenta complicações respiratórias no pós-operatório. A hipertensão mal controlada eleva a chance de sangramento, hematoma e instabilidade durante a anestesia.
A apneia merece atenção especial em cirurgia plástica porque o paciente sai da sala com dor, analgésico opioide, cinta compressiva e, muitas vezes, posição restrita, tudo o que piora a respiração durante o sono. Ronco alto, pausas respiratórias percebidas por quem dorme junto, sono não reparador e sonolência diurna são sinais para investigar antes, não depois.
Sobre pressão arterial existe um limiar prático. A Diretriz da SBC (2024) afirma que "recomenda-se que cirurgias eletivas de alto risco sejam adiadas apenas se a PAS for maior ou igual a 180 mmHg e/ou a PAD maior ou igual a 110 mmHg". Isso evita dois erros comuns: adiar a cirurgia por uma única medida alterada no consultório e, no outro extremo, operar alguém com hipertensão realmente descontrolada. Uma medida isolada alta merece confirmação fora do consultório, com aferição domiciliar ou monitorização, antes de qualquer decisão. Se esse é o seu caso, vale ler quando a pressão alta indica avaliação cardiológica.
Quais exames são pedidos no risco cirúrgico para cirurgia plástica?
Depende da idade, das doenças presentes e do porte do procedimento. Em pessoa jovem, sem comorbidades e com boa capacidade funcional, a avaliação pode se resolver com consulta, exame físico, eletrocardiograma e exames laboratoriais básicos. Pedir exame demais não deixa a cirurgia mais segura: só adia o procedimento e gera achados sem significado.
O que costuma entrar na conta:
- Eletrocardiograma de repouso: na maioria dos casos com fator de risco cardiovascular ou cirurgia de porte intermediário a alto.
- Exames laboratoriais: hemograma, coagulograma, função renal, eletrólitos e glicemia, sobretudo em lipoaspiração de volume maior e em cirurgias combinadas, onde há mais sangramento e mais deslocamento de líquidos.
- Ecocardiograma: quando há sopro, sintoma, doença cardíaca conhecida ou alteração no eletrocardiograma.
- Teste ergométrico ou exame de imagem com estresse: quando a capacidade funcional é baixa ou há suspeita de doença coronariana, e desde que o resultado tenha chance real de mudar a conduta.
- Investigação de apneia do sono: quando a história e a triagem clínica sugerem.
Nenhuma dessas indicações é automática: cada pedido precisa responder a uma pergunta clínica concreta. O raciocínio por trás de cada um, e por que a lista muda de paciente para paciente, está detalhado em quais exames são pedidos no risco cirúrgico.
Com quanto tempo de antecedência devo fazer o risco cirúrgico?
Costumo orientar que o risco cirúrgico para cirurgia plástica seja feito com pelo menos duas a quatro semanas de antecedência. Esse intervalo não é burocracia: é o tempo necessário para repetir um exame alterado, ajustar uma medicação, tratar uma anemia ou encaminhar para outra especialidade sem precisar remarcar a cirurgia.
Fazer a avaliação na véspera a transforma em carimbo. Quando algo aparece, e às vezes aparece, não há margem para corrigir, e a única saída passa a ser adiar. Marcar cedo é o que evita o adiamento, não o que provoca.
O laudo tem prazo de validade, e esse prazo depende do que foi encontrado e do que mudou desde então; esse ponto está explicado em qual a validade do risco cirúrgico. Se surgir sintoma novo entre a avaliação e a data da cirurgia: dor no peito, falta de ar, palpitação, desmaio, inchaço ou dor em uma perna, a avaliação precisa ser revista mesmo dentro do prazo, e o cirurgião e o anestesiologista precisam saber.
E se a avaliação indicar que preciso otimizar algo antes de operar?
Otimizar quase nunca significa cancelar. Na maior parte das vezes significa ajustar a dose de um anti-hipertensivo, tratar anemia, controlar a glicemia, iniciar tratamento de apneia, revisar o hormônio em uso ou definir profilaxia de trombose, e operar algumas semanas depois, com o mesmo cirurgião e um risco menor.
Quando a condição encontrada é relevante, porém, a orientação da diretriz é clara. A Diretriz da SBC (2024) afirma que "a estabilização de tais condições deve ter prioridade em relação à operação eletiva, que deve, sempre que possível, ser adiada, sendo reconsiderada somente após a compensação clínica". Em cirurgia estética esse adiamento quase sempre é possível, e é justamente por isso que ele deve ser usado.
Para o cirurgião plástico, o que torna o laudo útil na prática é o detalhamento: além do parecer de risco, ele deixa explícito o que precisa ser feito, quem faz, em quanto tempo e qual o ambiente recomendado para o pós-operatório imediato. Em pacientes selecionados também é possível combinar acompanhamento cardiológico no centro cirúrgico.
Se a sua cirurgia já tem data, o próximo passo prático é reunir três coisas: a lista completa dos medicamentos, hormônios e suplementos em uso; os exames dos últimos doze meses; e a descrição do procedimento planejado pelo cirurgião, com o tempo estimado. Como funciona a consulta está em avaliação de risco cirúrgico no Lago Sul, e as formas de atendimento e pagamento em como agendar a consulta.
Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta médica: a conduta depende do seu histórico, do seu exame físico e do procedimento planejado. Se você tiver dor no peito em aperto, falta de ar súbita, desmaio ou palpitação com mal-estar, não espere a consulta, procure um serviço de emergência ou ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Cirurgia plástica estética precisa de risco cirúrgico mesmo em pessoa jovem e saudável?
Precisa. A Resolução CFM nº 1.711/2003 determina que as condutas pré-operatórias sejam as mesmas de qualquer ato cirúrgico. Em pessoa jovem e sem doenças, a avaliação costuma ser rápida e resolvida com consulta, exame físico, eletrocardiograma e exames laboratoriais básicos. O objetivo é verificar se há algo silencioso e definir a profilaxia de trombose adequada ao porte da cirurgia.
Preciso parar o anticoncepcional antes da cirurgia plástica?
Não decida sozinha. Contraceptivos com estrogênio aumentam a tendência do sangue a coagular, e a Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso da SBC (2022) os lista como fator de risco. Mas suspender também tem consequências, inclusive gravidez não planejada. A conduta é individual e definida em conjunto por ginecologista, cirurgião e cardiologista, considerando o tipo de hormônio e o porte do procedimento.
Uso caneta para emagrecer. Preciso avisar antes da cirurgia?
Sim, sempre. Os agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, e a tirzepatida retardam o esvaziamento do estômago e interferem no jejum pré-anestésico e no risco de aspiração. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia endossou, em agosto de 2025, uma atualização sobre o perioperatório que aborda o manejo dessas medicações. Quem define suspensão e jejum é o anestesiologista.
Quanto tempo antes da cirurgia plástica devo fazer a avaliação cardiológica?
Costumo orientar duas a quatro semanas de antecedência. Esse prazo permite repetir um exame alterado, ajustar medicação ou tratar uma anemia sem remarcar a cirurgia. Feita na véspera, a avaliação vira carimbo: se algo aparece, não há tempo de corrigir e a cirurgia acaba adiada. Se surgir sintoma novo depois da avaliação, ela precisa ser revista.
Lipoaspiração de grande volume tem risco maior?
Sim, porque envolve mais deslocamento de líquidos, mais sangramento e mais tempo de cirurgia. A Resolução CFM nº 1.711/2003 determina que o volume aspirado não ultrapasse 7% do peso corporal na técnica infiltrativa, ou 5% na não-infiltrativa, nem 40% da área corporal. A mesma norma orienta evitar associar outros procedimentos quando volume e área estiverem próximos do máximo admitido.
Pressão alta impede a realização de cirurgia plástica?
Nem sempre. A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC (2024) recomenda que cirurgias eletivas de alto risco sejam adiadas apenas quando a pressão sistólica estiver igual ou acima de 180 mmHg ou a diastólica igual ou acima de 110 mmHg. O mais comum é ajustar o tratamento nas semanas anteriores e manter a cirurgia em nova data.
O que acontece se o risco cirúrgico apontar algo alterado?
Na maioria das vezes o resultado é otimização, não cancelamento: ajustar anti-hipertensivo, tratar anemia, controlar glicemia, iniciar tratamento de apneia ou definir profilaxia de trombose, e operar algumas semanas depois. Quando a condição é relevante, a Diretriz da SBC (2024) orienta priorizar a estabilização clínica e reconsiderar a cirurgia eletiva apenas após a compensação.
Cirurgias combinadas aumentam o risco cardiovascular?
Aumentam, porque somam tempo de mesa, área operada e volume de sangramento. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso da SBC (2022) cita a cirurgia geral de grande porte acima de 45 minutos como fator de risco, com aumento proporcional à duração. Na avaliação, o tempo cirúrgico estimado pelo cirurgião é informação central para definir a profilaxia e o ambiente do pós-operatório.
Fontes e leitura complementar
- Resolução CFM nº 1.711/2003: parâmetros de segurança nas cirurgias de lipoaspiração
Conselho Federal de Medicina - Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC de 2024
Sociedade Brasileira de Cardiologia - Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022
Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBA endossa atualização sobre manejo de análogos GLP-1 no perioperatório
Sociedade Brasileira de Anestesiologia - SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
Ministério da Saúde
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- o que significa a classificação ASA Depois de entender o que pesa na estratificação, o leitor quer decifrar a letra e o número que aparecem no laudo.
- quando a pressão alta indica avaliação cardiológica Quem descobre pressão alta na triagem pré-operatória precisa saber quando isso exige acompanhamento, e não só liberação.
- quais exames são pedidos no risco cirúrgico Complementa a lista resumida do artigo com o raciocínio completo por trás de cada exame.
- qual a validade do risco cirúrgico Responde à dúvida imediata de quem já fez o laudo e teve a data da cirurgia remarcada.
- acompanhamento cardiológico no centro cirúrgico Interessa ao cirurgião plástico e ao paciente de maior risco que precisam de suporte durante o próprio ato cirúrgico.
- avaliação de risco cirúrgico no Lago Sul É a página de serviço correspondente, com o funcionamento da consulta e o que levar.
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Dra. Layla Benevides, Médica Cardiologista, CRM-DF 17997, RQE 16674 (Clínica Médica) e RQE 16675 (Cardiologia).
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica, o diagnóstico nem o tratamento individualizado. Em caso de dor no peito intensa, falta de ar súbita, desmaio ou sintoma grave, procure imediatamente um serviço de emergência ou ligue para o SAMU (192).
